sábado, outubro 01, 2005


REVISTA VEJA: PARTE II


Não esqueçam do
amigão do homem...

Atenção, deputados do Conselho
de Ética: o caso Bob Marques é o
dólar na cueca de José Dirceu


Dirceu é a cuca, porque mora nacaverna
e põe medo em todo mundo



Dirceu, o deputado-Cuca, e Bob, o amigão, assessor informal e companheiro de "sábados, domingos e feriados": a cada depoimento, uma nova versão sobre a autorização para o pagamento de 50 000 reais

O retorno do deputado José Dirceu ao Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, na semana passada, pode não ter contribuído para esclarecer as dúvidas dos brasileiros a respeito dos meandros do valerioduto ou da participação do ex-chefe da Casa Civil no esquema, mas representou uma valiosa contribuição do ex-ministro ao já farto anedotário do mensalão. Logo no início do depoimento aos deputados que deverão decidir se encaminham ou não ao plenário o seu processo de cassação, Dirceu declarou: "Volto ao Conselho de Ética com a mesma serenidade, com a consciência tranqüila, cada vez mais convencido da minha inocência". O que o deputado quis dizer com isso permanece um enigma. É possível que alguém possa ficar cada vez mais magro, cada vez mais sedutor ou mesmo cada vez mais modesto. Mas a inocência, assim como a morte, não permite relativizações. A menos que, no mundo de Dirceu, existam pessoas "meio vivas", "meio honestas" ou "meio inocentes".

Das tentativas de malabarismo retórico do ex-ministro sobraram acusações à imprensa ("Fui submetido a um linchamento público" ou "De nada valem os quarenta anos que tenho de vida pública") e muitas meias verdades (ou seriam meias mentiras?). Ao ser questionado pelo relator do processo de cassação, deputado Júlio Delgado (PSB-MG), sobre a sua relação com Roberto Marques, que lhe presta serviços de secretário, Dirceu mostrou-se cada vez mais enrolado (e não "cada vez mais inocente"). Conforme aponta documento em poder da CPI, Roberto Marques, ou Bob Marques, foi autorizado em junho de 2004 a sacar 50.000 reais das contas do empresário Marcos Valério. Em seu primeiro depoimento ao Conselho de Ética, no início de agosto, o deputado havia dito que Bob era seu "amigo e assessor informal". No depoimento de terça-feira, o ex-chefe da Casa Civil preferiu um recuo estratégico: "Ele não é meu assessor, é funcionário da Assembléia Legislativa de São Paulo. E, aos sábados e domingos, nas férias, sempre me acompanha, como amigo. Ele é um amigo". Também no primeiro depoimento, Dirceu tinha dito que nada havia que provasse que o Bob Marques do documento fosse o Bob Marques que o acompanha aos sábados, domingos e nas férias. "Eu não posso aceitar que esse Roberto Marques seja o Roberto Marques que é meu amigo", disse (como se tratasse de "aceitar"). No depoimento de terça, Dirceu, de novo, mudou o script. Quando Delgado lembrou que Marcos Valério afirmara que o nome de Roberto Marques lhe fora passado pelo ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares – sugerindo que seria coincidência demais que houvesse dois Robertos Marques no círculo petista –, o ex-ministro foi às cordas. Constrangido, ensaiou uma saída jurídica: "Ele (Marcos Valério) diz que colocou e retirou esse nome. Mesmo tomando como verdade isso, não houve crime nenhum, ilícito nenhum". Ou seja: Bob, que antes era um assessor informal, agora virou simplesmente "amigo". E a possibilidade de o Bob do documento ser o Bob das férias, antes negada com veemência, agora é algo que pode ser "tomado como verdade".



Há uma razão muito clara para a preocupação do ex-chefe da Casa Civil com a presença do nome de seu amigão Bob no valerioduto: Bob pode ser o dólar na cueca de Dirceu. O fato de o secretário (ou assessor informal, ou companheiro de férias, como ele prefere) do deputado ter sido autorizado a sacar das contas de Valério torna a situação do ex-ministro idêntica à de parlamentares petistas como Professor Luizinho (SP) e Paulo Rocha (BA) – que, também por meio de saques feitos por assessores, foram flagrados se beneficiando do valerioduto. Outro problema para Dirceu é a suspeita triangulação entre Roberto Marques, Delúbio Soares e a corretora Bonus-Banval. Numa operação até agora não esclarecida, a autorização para que o companheiro de férias de Dirceu sacasse um cheque de 50.000 reais foi repassada a outra pessoa, Luiz Carlos Mazano – que vem a ser motorista da Bonus-Banval.

A corretora é apontada como um dos principais escoadouros de recursos do mensalão. Ela vem sendo investigada pela Polícia Federal por causa da suspeita de que, nos últimos anos – e em especial durante as eleições de 2002, que levaram Lula à Presidência –, tenha funcionado como a principal lavanderia petista, transformando em reais os dólares que rechearam malas e cuecas de altos dirigentes da legenda. Em depoimento a uma sessão conjunta das CPIs, o doleiro Antonio Oliveira Claramunt, o Toninho da Barcelona, disse ter participado de uma operação de 7 milhões de reais que teria como destino campanhas do PT. A Bonus-Banval, segundo Barcelona, foi a intermediária do esquema. O doleiro revelou ainda que Enivaldo Quadrado, um dos proprietários da corretora, se tornou amigo de José Dirceu. Quadrado nega que conheça o ex-ministro. Em depoimento à Polícia Federal, no início do mês passado, Marcos Valério disse que a idéia de usar a Bonus-Banval para repassar recursos a partidos da base aliada e ao próprio PT foi de Delúbio Soares. A Bonus-Banval, como se vê, está cada vez mais enrolada no esquema clandestino do mensalão. E José Dirceu, aquele que diz ficar cada dia mais inocente, idem.

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